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sábado, fevereiro 24, 2007

Efeito colateral


Assim que conseguiu juntar o suficiente para uma vida sem maiores cuidados, tratou de procurar uma casa acolhedora em um lugar aprazível, não muito distante do Rio, onde pudessem, ele e a mulher, desfrutar a paz da natureza e uma vida sem complicações. Em pouco mais de três meses tinham essa casa: ficava entre a serra e o mar no estado do Rio, à beira de um lago escuro e plácido, rodeada por um bosque, um jardim que já encontraram florido e um pequeno pomar. Pensaram nos amigos, fins de semana reconfortantes e até férias que poderiam lhes oferecer, agradando a eles e animando sua nova vida.
Logo que se mudaram ficava horas a contemplar o lago, morada de carpas imensas, trutas e cardumes de peixinhos que ia admirar da margem onde se instalava em uma cadeira preguiçosa com um livro nas mãos.
Descobriu nesse período que existe uma variedade infinita de insetos de formas e cores interessantíssimas – alguns dos quais incomodam muito, é verdade. Aprenderam depressa a usar repelentes para se defender do lado menos confortável da vida ao ar livre – o que resolvia a situação em parte, porque a mulher sofria de alergia ao cheiro desses produtos e espirrava sem parar depois de usar um deles.
Não pretendiam converter-se em eremitas; sabiam que a convivência dos outros lhes faria falta. A intenção era não deixar passar mais de vinte dias sem uma ida ao Rio para assistir a uma peça de teatro, ir a um cinema ou visitar alguém, além das exposições de pintura que ela curtia.
O lago era um lugar que parecia feito para o silêncio e a meditação, espelhando as margens e o céu, às vezes azulado, outras meio verde ou de um negro absoluto. A água era límpida, plácida. Mais sossego, impossível.
— É engraçado, disse a mulher, numa manhã, duas semanas depois de se mudarem para a nova casa. Você às vezes não tem a impressão de estar em outro mundo?
— Eu não, isola! – ele respondeu, rindo.
Mas era verdade. Talvez porque não viam ninguém havia dois dias. Talvez porque o telefone só tivesse tocado quatro ou cinco vezes durante aquelas duas semanas. Ou porque o silêncio fosse tão denso que absorvia qualquer ruído. Um tipo de silêncio que era como um rumor surdo e permanente a soar em suas cabeças.
Ao sol, vendo os mosquitos subirem feito nuvem sobre as larvas silenciosas e os tons da vegetação das imediações, o lago parecia ainda mais gravemente imperturbável. Esperava pela noite, pela lua, e se revestia de uma vida oculta e de mistério. Mas para eles aquele encanto parecia começar a pesar.
Era setembro e já começava a esquentar, mas ainda fazia um pouco de frio durante as madrugadas. Haviam-se passado pouco mais de dois meses na nova casa. Nas primeiras duas ou três semanas, ele acordava refeito, contente e disposto, louvando o sono reparador da noite. Mas ultimamente dera para acordar às três, quatro horas e não conseguia adormecer de novo. Perder o sono naquele paraíso de silêncio era uma heresia e o contrariava seriamente. Andava meio desconfiado, por mais paradoxal que parecesse, de que a falta da agitação começava a perturbar seu sossego. O isolamento e a sensação de estar sendo esquecido começavam a estragar os sonhos de uma vida calma e livre naquela casa, idealizada durante tantos anos e construída como um antídoto para os males da civilização predatória em que tinham estado mergulhados nos últimos trinta e poucos anos. Quando o sono afinal o vencia de novo, o céu já ia ficando meio iluminado daquele tom rosado-ouro que anuncia – ou ameaça – a chegada de outro dia.
Acordou numa dessas manhãs às dez e pouco. A mulher o esperava na copa e sentada a sua frente parecia pensativa.
— Que foi?
— Bem, nem sei como te dizer isso... Mas acho que precisamos de umas férias. Que é que você acha de umas semanas de barulho, poluição e perigo?Em vez de estranhar, ele sorriu com ar de cumplicidade. E logo depois do almoço daquele dia estavam os dois a caminho do Rio.


dito por dade amorim




2 Comments:




Anonymous andrade jorge said...

navegando nas ondas da internet vim parar neste botequim, e daqui nao saio mais. Adorei

25 fevereiro, 2007 10:34  



Anonymous Celso Ramos said...

Olá Dade!!!

Você realmente tem intimidade com a palavra. De uma forma muito delicada você consguiu mostrar que tudo demais faz mal!!! a tranquilidade é importante mas só terá sentido se houver o barulho e o perigo!!!
Um bom natal para você.
Obrigado pela suas visitas e pela sua leitura atenta, valeu!!!

18 dezembro, 2009 17:49  



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